Teologia da Libertação

Teologia da Libertação
"Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo" Roberto Malvezzi (CPT)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

CAP - Cursos de Aperfeiçoamento Profissional UNISUAM

Olá, queridos amigos
Venho divulgar dois cursos que vou ministrar no CAP - Cursos de Aperfeiçamento Profissional da UNISUAM.

Os cusros irão acontecer de 11 a 25 de julho de 2011.

São eles:

Cristianismo Primitivo

Este curso pretende apresentar a história das comunidades primitivas desde seu início nas comunidades judaicas até a sua transição para a estrutura cristã romana. Discutindo aspectos políticos e sociais ocorridos no decorrer desta transição.

O curso acontece nos dias: 11,13,18 e 20 de julho de 2011.
No seguinte horário: 18:00 ás 21:00h.

Inscrições somente pelo site da UNISUAM: http://www.unisuam.edu.br/

Roma Antiga: concepções gerais

Este curso pretende contextualizar Roma Antiga no período da República ao Império, tratando dos interesses políticos, sociais e culturais.

O curso acontece nos dias: 11,13,18 e 20 de julho de 2011.
No seguinte horário: 13:00 ás 17:00h.

Inscrições somente pleo site da UNISUAM: http://www.unisuam.edu.br/

terça-feira, 29 de junho de 2010




Fundamental para a reflexão teológica de Rubem Alves é a contribuição do principal cavaleiro da modernidade, Friedrich Nietzsche. Alves afima:



Nietzsche era, antes de mais nada, um amante da terra, da vida, da liberdade e da espontaniedade. Com a visão de profeta que o caracterizou, ele pôde perceber a que a história da civilização ocidental era uma história de repressão. Segundo Nietzsche, isto significa que a familiaridade com as raízes mais espontêneas da vida - a cracterística do estilo Dionisiano de vida - foi reprimida pelo estilo Apoliano: o triunfo da forma, do limite, sobre a vitalidade e espontaniedade. Toda sua obra é, assim, um protesto contra repressão e uma celebração a vida. É preciso que a terra seja transformada num local de recuperação, onde o homem possa ser devolvido ao que Normam Brown denominou o "sentindo erótico da vida", ou seja a libertação do corpo para uma relação de prazer com o mundo todo que o cerca, mundo de cores, sons, perfumes, gestos, carícias. Ora, Nietzsche compreendeu que toda esta estrutura de repressão que funcionou na civilização ocidental estava iseparavelmente ligada a uma estrutura religiosa. Em nome de Deus nega-se a vontade, a espontaniedade, o ideal cristão e a obediência, o camelo que aceita todas as cargas sem reclamar. Em nome de Deus nega-se o tempo, porque se o mundo é o mundo da eternidade. Em nome de Deus nega-se a liberdade do homem para criar um futuro novo, porque todos os valores já haviam sido codificados no passado. É por isso que ele anuncia o super-homem (que nenhuma relação tem com a ideologia nazista, como se tentou fazer crer) , o homem que terá coragem para afirmar a sua vida e a sua liberdade contra todas as estruturas de repressão que nossa civilização criou. Ora a coroa de toda estrutura era o nome de Deus. Graças a este nome a repressão se tornava sagrada e a condição de oprimido se tornava virtude. Consequentemente, a "morte" deste nome trazia consigo mesmo o começo do fim das estruturas de repressão. Elas perdem o seu caráter sagrado, e o homem, até então na consição de camelo, está livre para transformar-se em leão que haverá de destruir o dragão que o oprime. O homem se reconcilia com a terra e a fertiliza com seu amor. É por isso que para Nietzsche o anúncio da morte de Deus tem qualidade de uma "boa nova", porque ele significa permissão para a vida, para o mundo, para o futuro.



Rubem Alves foi, sem nenhuma dúvida, o teólogo que desenvolveu a mais forte e contundente crítica das tradições no horizonte teológico latino-americano.


Cabral.Jimmy Sudário.Bíblia e Teologia Política.Escrituras, tradição e emancipação.
Rio de Janeiro/Editora Mauad X: Instituto Mysterium,2009. p.77

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Para traçar um viés historiográfico da Teologia da Libertação busquei referências nos seguintes autores: Leonardo Boff, Clodovis Boff, Marina Bandeira e Enrique Dussel. Procurei focar como se desenvolveu a Teologia da libertação, fazendo um recorte da história iniciando na Igreja da colonização até a república, procurando entender o que vem acontecendo neste período da história da Igreja, suas mudanças culturais, políticas, sociais e econômicas traçando um comparativo com os principais acontecimentos no mundo no período de 1808 a 1971, de forma que se torne compreensível as mudanças vividas pela a Igreja Católica.

Busquei construir um texto descritivo e em alguns momentos argumentativo, evitando repetições dos autores quando se tratava da mesma opinião sobre a Teologia da Libertação, desta forma é possível acompanhar esta leitura como uma historiografia da Teologia da Libertação sobre quatro olhares em seus diferentes momentos, onde será possível no decorrer da leitura identificar o ponto de vista de cada autor.

A Igreja Católica era uma forte aliada de Portugal e Espanha durante a colonização. Ela podia entrar em áreas que o Estado não conseguia. Como os moldes da colonização possuíam um cunho mercantilista, a Igreja na América Latina serviu aos interesses monárquicos para propiciar e legitimar a exploração. Dentro do seu trabalho, os missionários iam além de suas atribuições oficiais e não raro, tomavam o partido dos povos oprimidos pelo sistema colonial. No final do século XVIII há um embate entre a Coroa portuguesa e a Cia de Jesus que culminou na expulsão dos jesuítas do continente e serviu para barrar ações autônomas de correntes da Igreja que colocavam em questão o modelo de Cristandade, em que o Estado, Igreja e setores dominantes da sociedade defendiam.

Entre 1808 e 1960 França e Inglaterra disputavam o mercado mundial. Com as guerras napoleônicas e a invasão da Península Ibérica por Napoleão, houve a fragilização de duas monarquias católicas, acelerando o processo de independência por parte das colônias ibéricas estimuladas pela Inglaterra que assumiu um poder econômico hegemônico no mercado mundial. As colônias na América Latina começaram a conquistar a sua independência e, sem adotar alternativas, ficaram atreladas ao poderio inglês. A luta pela independência colocou em cheque a cristandade colonial. Embora a Igreja apoiasse oficialmente os colonizadores, não deixou de ter líderes que apoiassem as guerras de independência ou os movimentos emancipacionistas.

A partir de 1870 surgem os Estados liberais-oligárquicos na América Latina, no Brasil ocorreu a partir de 1889 com a proclamação da república sobre o víeis militar-positivista. A grande exportação de matéria prima e importação de produtos industrializados ocasionaram um processo de subdesenvolvimento. A concentração da riqueza a um pequeno grupo à custa da grande maioria pobre. Mediante a esta realidade os movimentos sociais e religiosos tomam mais dimensão no contexto nacional.
Entre 1930 a 1960 houve o surgimento dos movimentos “populista, nacionalista e desenvolvimentista”. A queda da bolsa de Nova York em 1929 contribuiu para o início dessa nova fase. Intensificou se o processo de industrialização na América Latina e o êxodo rural assim como na Europa.

A Igreja assume o projeto nacionalista e desenvolvimentista, com possibilidade de romper com o projeto das oligarquias submissas ao imperialismo econômico e a tentativa de barrar os anseios sociais de se construir na América Latina uma alternativa com características tipicamente socialista.

A Igreja ao desvincular-se do Estado e divergir opinião junto à classe dominante busca a desenvolver um pensamento que a levasse a ações de manutenção de sua influência ideológica na população competindo com os novos movimentos e idéias.

Sob o Estado autoritário, amplos setores da Igreja fizeram na prática uma aliança estratégica com os movimentos de libertação social que surgiram em toda América Latina tornando o discurso dos setores conservadores da Igreja divergentes mediante a opinião pública. Havia para a Igreja uma proposta de Nova Cristandade, onde uma parte desta buscava uma recolocação junto às hierarquias do Estado e outra parte comprometida com os problemas sociais da população ocasionados pelo capitalismo dependente. A Igreja caminha dividida.

Em 1962 é formada a Ação Popular, formada por cristãos ligados à Ação Católica em particular a Juventude Universitária Católica (JUC), a Igreja abre espaço para participação dos leigos na conquista de seus ideais. A Ação Católica tem suas raízes em torno do corporativismo. Pio XI condena o comunismo na encíclica Divini Redemptoris e este fato prova a urgência da Igreja em encontrar um espaço mais seguro na vida das massas dos trabalhadores, uma vez que junto ao Estado e a classe dominante não há segurança devido às divergências no discurso de ambos.

Diante da confrontação dos dois extremos os malefícios do liberalismo econômico, fruto do “modernismo” e do “Individualismo”, condenados pela Igreja desde o século XIX, e o comunismo de Stalin, Pio XI radicaliza sua posição, deposita esperança numa terceira alternativa: o “Corporativismo”.
( A Igreja Católica na virada da questão social (1930-1964); Marina Bandeira; Vozes, RJ, 2000; p.27.)

Assim a Ação Católica foi criada inspirada nas associações corporativistas do estado fascista italiano, trata-se de formar um laicato de elite, absolutamente fiel ás determinações da Santa Sé e dos bispos diocesanos, para desempenhar a difícil tarefa de confrontação com os Estados fortes, muitos deles nitidamente anticlericais.

Para Enrique Dussel a América Latina seguiu “como nenhum outro continente” as instruções de Pio XI acerca da AC. A teologia da Ação Católica, de acordo com Dussel, denominada de “Teologia da Nova Cristandade” foi “uma reflexão cristã que legitimou - ainda que aparentemente criticasse de maneira externa o projeto populista”
(Enrique Dussel – Teologia da libertação. Um panorama de seu desenvolvimento; Editora: Vozes, Petrópolis, 1999, pp44-45.)
A Ação Católica compõe-se de uma eclesiologia totalmente hierárquica, onde o leigo participa de um apostolado que é dado de cima para baixo. Haveria uma “concepção individualista da missão cristã (salvar a alma), etc”. Neste sentido, Dussel afirma que há uma compreensão do Estado que atua como uma “sociedade perfeita” junto a Igreja que também se vê como “sociedade perfeita”. Um acordo entre ambas seria possível e não contraditório.
( Enrique Dussel – op.cit. p.45.)
Uma tentativa de restaurar o poder junto ao Estado.
O espírito defensivo da Igreja Católica de tendência conservadora, somada a crise do personalismo e do fascismo na Europa, faz com que a instituição eclesiástica necessite encontrar outro caminho na tentativa de dirigir as massas.
Na América Latina na década de 50, as teorias desenvolvimentistas influenciam a Ação Católica; abordando problemas sócio-econômicos como passives de serem resolvidos mediante ao desenvolvimento e o progresso econômico dos países. Tem-se a primeira Conferência Episcopal Latino Americana no Rio de Janeiro; a criação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a criação da Confederação de Religiosos da América Latina em 1958 e, a convocação do Concílio Vaticano II (1962 a 1965). Tudo isso havia criado uma infra-estrutura que auxiliaria no desenvolvimento da futura renovação da Igreja no continente, através de uma nova abordagem dos problemas sociais e da própria teologia.
Para Leonardo Boff a Teologia da Libertação teve suas raízes históricas na tradição de evangelizadores e missionários, que desde o início da colonização questionaram o tipo de presença da Igreja no Continente e a maioria como eram tratados os indígenas, os negros e os mestiços e as populações pobres do campo e da cidade.
“Os governos populistas dos anos 50-60 especialmente com Perón na Argentina, Vargas no Brasil e Cárdenas no México incentivaram uma consciência nacionalista e um significativo desenvolvimento industrial de substituição de importações, beneficiando as burguesias nacionais e as populações urbanas, mas lançando a marginalização ou no favelamento porções imensas do campesinato. O desenvolvimento, porém, foram promovidos nos moldes de um capitalismo dependente, associado aqueles dos países ricos, excludente das grandes das grandes maiorias. Tal fato criou grandes mobilizações populares reivindicando transformações profundas na estrutura sócio-econômica dos respectivos países”.
(Como Fazer Teologia da Libertação; Leonardo Boff e Clodovis Boff; Vozes; Petrópolis; 1986; p93. )
Os movimentos populares e os grupos cristãos militavam no sentido de uma libertação sócio-política. Foi então que surgiram as condições objetivas de uma autêntica Teologia da Libertação.
No contexto de diálogo entre Igreja, sociedade e classes populares, se iniciaram as primeiras reflexões teológicas que apontavam para a Teologia da Libertação. Neste momento é possível identificar uma nova mudança na atitude da Igreja mediante a quem se posicionar a quem deseja agora contribuir com seu legado, não é mais o Estado e as altas hierarquias, agora a Igreja entende que sua ideologia vem de encontro aos interesses da massa, das classes populares, que não deixam de representar poder por ser tratar da maioria dos países envolvidos na crise.
A atmosfera teológica marcada por grande liberdade criatividade que se desenvolvera durante a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965) propiciava a América Latina a coragem de os teólogos pensarem nossas questões pastorais com a própria cabeça, isto tanto do lado católico quanto do lado protestante (especialmente no interior do ISAL: Igreja e Sociedade na América Latina).
(Como Fazer Teologia da Libertação; Leonardo Boff e Clodovis Boff; Vozes; Petrópolis; 1986; p96.)

Podemos perceber através da fala de Leonardo Boff que a Igreja estava propensas a novas aberturas e opiniões, novas alianças como a igreja protestante, sua nova elaboração de teologia abria um largo espaço para inclusão de indivíduos, mas até que ponto?
No Brasil a esquerda católica produziu entre 1959-1964 uma série de textos básicos sobre a necessidade de um ideal histórico cristão, ligado a uma ação popular cuja metodologia já prenunciava a Teologia da Libertação, urgia-se um engajamento pessoal na realidade, descodificada mediante o estudo das ciências do social e do homem e iluminada pelos princípios universais do cristianismo.
Em março de 1964 num encontro de teólogos latino-americanos em Petrópolis (Rio de Janeiro), Gustavo Gutiérrez apresentava a Teologia como reflexão crítica sobre a práxis. Em reuniões em junho de 1965 em Havana, Bogotá e Cuernavaca esta linha de pensamento ganhava melhores contornos. Em torno à preparação de Medellín (1968) se organizaram muitos encontros que funcionaram como laboratório para uma teologia pensada sobre questões pastorais e a partir da prática comprometida dos cristãos.
A igreja deseja comprometer a as classes envolvidas em seu processo de transformação, de forma moral, política, social e religiosa, estas classes são convidadas a mudar junto com a Igreja, de forma que se tornem também responsáveis pelo processo, assegurando a igreja perante o Estado e altas hierarquias.
Em dezembro de 1971 Gustavo Gutiérrez publica o livro inaugural desta teologia com o seu Teologia da Libertação, perspectivas. Já antes em maio do mesmo ano Hugo Assmann publicava o livro coletivo Opresión-liberacion: desafio de los cristianos (Montevidéu) e em dezembro Leonardo Boff termina em forma de artigo o seu Cristo Libertador (Petrópolis). Estava aberto assim o caminho para uma teologia feita a partir de uma periferia que representavam o desafio à missão evangelizadora das Igrejas.
A distância entre a prática e a teoria, ou entre a pregação da mensagem religiosa e sua vivência tem sido uma crítica apontada pelos militantes católicos. As contradições presentes no Catolicismo foram percebidas e apontadas pelos membros das CEBS e teólogos da libertação. No entanto o medo da “heresia”, ou melhor, as ameaças veladas ou explicitas de ser excluído do “Corpo Místico do Cristo” funcionaram como freios. A ideologia da instituição católica como mediadora única – capaz de levar o fiel a Deus – seria uma barreira muito forte aos impulsos internos e mais críticos. A tentativa de crítica histórica da religião e instituição, feita pela Teologia da Libertação, procurou auxiliar na “libertação” de tais mecanismos ideológicos; mas não é capaz de alterar de fato a estrutura de poder. No entanto, há uma riqueza considerável na diversidade de pensamento, que possivelmente, servem como estratégia de sobrevivência para religião.
Fica aqui apenas uma abertura para o tema Teologia da Libertação e sua historiografia, de forma a contribuir, trocar e discutir.
Profª Roberta Damasco.